Túneis subterrâneos de Santos: o que tem documento e o que é lenda
Os túneis subterrâneos de Santos misturam galerias achadas em obras e lendas coloniais. Veja o que tem registro em jornal e no Diário Oficial e o que é lenda.
Santos tem uma coleção de histórias sobre túneis secretos: uma gruta colonial escondida no Monte Serrat, uma passagem que ligaria o Mosteiro de São Bento ao cais e um refúgio contra piratas com saída no Morro da Nova Cintra. Algumas dessas galerias existem e foram encontradas em obras do século XX, registradas pela imprensa e pelo Diário Oficial do município. Outras aparecem apenas em livros de cronistas e em relatos orais, sem que ninguém tenha voltado ao local para confirmar. Nós fomos atrás das fontes de cada história, no mesmo espírito da matéria sobre o vulcão do Macuco, a primeira fake news do Brasil, e separamos o que tem registro do que segue como lenda.

O que tem registro: as galerias achadas no Centro
Todas as galerias encontradas no subsolo do Centro e do Valongo de que temos registro apareceram durante obras ou por acaso, e as avaliações feitas por técnicos apontam para estruturas de drenagem e canalização de rios.
| Ano | Local | O que foi encontrado | Fonte |
|---|---|---|---|
| 1962 | Rua do Comércio | galeria de paredes de pedra, teto em abóbada, cerca de 1 m de largura | A Tribuna, 6/1/1980 |
| 1977 | Rua Visconde de São Leopoldo | a mesma galeria, reencontrada no alargamento da rua | A Tribuna, 6/1/1980 |
| 2003 | Av. Visconde de São Leopoldo, 335 | estrutura de pedra com cerca de 2 m de diâmetro | Diário Oficial de Santos, 28 e 29/3/2003 |
| 2008 | Rua São Bento, 13 (Valongo) | galeria a cerca de 3 m de profundidade, com objetos do século XIX | Diário Oficial de Santos, 30/9/2008 |
Rua do Comércio, 1962. Funcionários da Prefeitura encontraram a galeria quando a rua começou a afundar. O engenheiro José Lopes, que depois foi superintendente da Sabesp, entrou no local e descreveu paredes de pedra, teto em abóbada, tijolos finos e compridos, cerca de um metro de largura e morcegos. Em 1977, a galeria apareceu de novo nas obras de alargamento da Rua Visconde de São Leopoldo. O relato foi publicado na reportagem “Os subterrâneos de Santos”, de Lane Valiengo, em A Tribuna de 6 de janeiro de 1980.
Av. Visconde de São Leopoldo, 2003. Em março de 2003, uma obra da Sabesp encontrou uma estrutura de pedra de cerca de dois metros de diâmetro, no número 335 da avenida, na direção entre o Mosteiro de São Bento e a Igreja do Valongo. O Diário Oficial de 28 de março informou que técnicos da Fundação Arquivo e Memória de Santos fariam a avaliação. No dia seguinte, a escavação foi suspensa a pedido da arqueóloga Eliete Pitágoras, do Instituto de Pesquisas em Arqueologia (Iparq) da Unisantos, que declarou: “É quase certo que não seja um túnel, como as pessoas querem acreditar”, acrescentando que a estrutura tinha valor histórico. Na época, foi anunciado um mapeamento das antigas galerias de drenagem do Centro. Não encontramos registro publicado do resultado desse mapeamento.
Rua São Bento, 2008. Em 29 de setembro de 2008, uma galeria foi encontrada no fundo de um buraco no quintal de uma marcenaria na Rua São Bento, 13, no Valongo. O historiador Waldir Rueda e o arqueólogo Manoel Mateus Gonzalez, do Núcleo de Pesquisas e Estudos em Ciências (Nupec), percorreram a galeria até uma saída em arco, cerca de 500 metros adiante, na direção do cais. Lá dentro, encontraram objetos do século XIX, entre eles garrafas de barro e de vidro de 1830. As duas hipóteses levantadas pelos pesquisadores foram a canalização do antigo Rio de Nossa Senhora do Desterro ou uma galeria sanitária anterior ao plano de saneamento de Saturnino de Brito. A descoberta foi noticiada pela Prefeitura e publicada no Diário Oficial de 30 de setembro de 2008.
Em abril de 2003, uma moradora contou a A Tribuna ter andado por um túnel no Edifício Castelo, na Rua Júlio de Mesquita, 166. O proprietário do prédio respondeu que nada do tipo foi encontrado no local. O relato ficou sem confirmação.
Os rios que correm por baixo do Centro
Boa parte das galerias encontradas se explica pelos ribeirões que cortavam o Centro de Santos e foram canalizados no início do século XX. Na mesma reportagem de 2003, a arqueóloga Eliete Maximino explicou que todo o Centro tinha pequenos cursos d’água usados para drenagem.
| Ribeirão | Nascente | Trajeto canalizado |
|---|---|---|
| São Bento (antigo Desterro) | Morro de São Bento | passava em frente ao Convento do Valongo, no atual Largo Marquês de Monte Alegre |
| São Jerônimo | Monte Serrat | sob a Praça dos Andradas e a Rua Conde D’Eu, até o estuário |
| Carmo | sopé do Monte Serrat, junto à bica do Itororó | sob as ruas Itororó e Augusto Severo e a Praça Barão do Rio Branco, ao lado da Igreja do Carmo |
O traçado desses ribeirões passa pelos mesmos pontos citados nas lendas: o Mosteiro de São Bento, o Valongo e a Igreja do Carmo.
A gruta do Monte Serrat em 1928
O caso que mais aproxima a lenda de um registro aconteceu em 10 de março de 1928, quando parte da encosta do Monte Serrat desabou sobre a Santa Casa, na época instalada no sopé do morro, e deixou vítimas. Durante as obras de contenção, os trabalhadores teriam encontrado a entrada de uma gruta fechada por um portão de ferro, que se desfez ao ser tocado.
As descrições do local chegaram até nós por historiadores que ouviram o engenheiro municipal Antônio Gomide Ribeiro dos Santos, que chefiou as obras e depois foi prefeito de Santos. Segundo o historiador Francisco Meira, em “Santos de Ontem”, publicação do Diário Oficial de 1952, havia um salão de cerca de quatro por oito metros, com piso de pedra e bancos ao longo das paredes, e um túnel ao fundo, por onde os operários entraram cerca de 30 metros. Aves noturnas voavam lá dentro, o que indicaria uma abertura para entrada de ar. Gomide mostrou a Meira uma fotografia da entrada. Por causa do risco de novos deslizamentos, a abertura foi fechada.
As versões têm diferenças. Francisco Martins dos Santos, fundador do Instituto Histórico e Geográfico de Santos, escreveu em A Tribuna de 19 de abril de 1953 que havia “inscrições esquisitas” nas paredes e que a entrada foi coberta com tijolos, cimento e uma nova camada de barro. Ele disse ter a fotografia, feita pelo fotógrafo Marques Pereira, que estava sem magnésio para o flash e só conseguiu registrar a entrada pelo lado de fora, e preferiu não publicá-la. No mesmo artigo, anunciou uma expedição para reencontrar a gruta “ainda neste outono”. A expedição não aconteceu, e cerca de 14 anos depois ele ainda tentava organizá-la. Morreu sem conseguir.
Em 1971, o suplemento infantil “A Escolinha”, do Diário Oficial de Santos, publicou uma foto da encosta com setas indicando onde estaria a entrada e uma planta hipotética do túnel. Em 1980, A Tribuna publicou outra foto marcando o ponto, na encosta voltada para o Morro de São Bento, perto da antiga escadaria. Para a historiadora Wilma Terezinha de Andrade, ouvida na reportagem de 1980, só uma escavação com técnicos permitiria saber quando a gruta foi construída.
Na nossa leitura das fontes, existem relatos de segunda mão, publicados por historiadores, de que uma abertura foi encontrada em 1928. A origem, o uso e a extensão desse túnel nunca foram investigados, e não encontramos registro de que alguém tenha voltado ao local.
O que é lenda, e de onde cada uma veio
Nenhuma das histórias abaixo tem confirmação por escavação ou documento de época. Para cada uma, indicamos onde ela aparece pela primeira vez nas fontes que consultamos.
A gruta de Nossa Senhora do Desterro. Segundo a história, Mestre Bartolomeu, ferreiro que chegou com a armada de Martim Afonso em 1532, passou os últimos anos de vida escavando um refúgio no morro onde depois se ergueu o Mosteiro de São Bento. O filho terminou a obra e, durante o ataque dos corsários ingleses de Thomas Cavendish, levou mais de 300 moradores para dentro da gruta, que teria saída no Tachinho, atual Morro da Nova Cintra, e um caminho até São Vicente. A origem é o livro “Lendas e Tradições de uma Velha Cidade do Brasil”, de Francisco Martins dos Santos, de 1940, que trata o episódio como lenda já no título. O texto tem imprecisões: situa o ataque em dezembro de 1590, enquanto o saque de Santos por Cavendish é registrado em 1591, e chama de capuchinhos os monges que receberam as terras, que eram beneditinos.
O túnel do Mosteiro ao cais. Uma passagem ligaria o Mosteiro de São Bento ao cais, à Igreja do Valongo e ao Convento do Carmo, com entrada secreta dentro do mosteiro. Essa história vem da tradição oral e aparece registrada como lenda nas compilações de história santista. As galerias encontradas nessa região em 1962, 2003 e 2008 foram identificadas como drenagem ou canalização de ribeirões.
O refúgio do Tachinho. Na encosta da Nova Cintra, do lado da Caneleira, perto de uma cachoeira, estaria a outra ponta do túnel. A história aparece em relato de Geraldo Ferrone publicado em A Tribuna em 26 de março de 1944, com depoimentos de caçadores do morro, e em “Santos de Ontem”, de Francisco Meira, que publicou fotos de um paredão com uma porta de pedra junto à cachoeira. Em 1980, um morador ouvido por A Tribuna contou que ouvia falar do túnel desde menino, chegou a procurar e não encontrou nada.
A capela dos cristãos-novos. A ideia de que a gruta do Monte Serrat teria sido uma capela clandestina de judeus convertidos, com um “muro das lamentações”, é uma hipótese do próprio Francisco Martins dos Santos, no artigo de 1953, ao lado da suposição de que a gruta teria pertencido a Braz Cubas. A historiadora Wilma Terezinha de Andrade discordou da hipótese em 1980, porque o local chamaria muita atenção para um culto escondido.
Resumo: documento ou lenda
| História | Situação | Origem do registro |
|---|---|---|
| Galeria da Rua do Comércio (1962 e 1977) | documentada | relato do engenheiro José Lopes, A Tribuna, 1980 |
| Estrutura da Av. Visconde de São Leopoldo (2003) | documentada, avaliada como drenagem | Diário Oficial de Santos e Iparq/Unisantos |
| Galeria da Rua São Bento (2008) | documentada, hipótese de canalização ou galeria sanitária | Diário Oficial de Santos e Nupec |
| Gruta do Monte Serrat (1928) | relato de segunda mão, nunca investigado | Francisco Meira (1952) e Francisco Martins dos Santos (1953) |
| Gruta de Nossa Senhora do Desterro | lenda | Francisco Martins dos Santos, livro de 1940 |
| Túnel do Mosteiro ao cais | lenda de tradição oral | compilações de história local |
| Refúgio do Tachinho | lenda com vestígios fotografados, sem escavação | Geraldo Ferrone (1944) e Francisco Meira (1952) |
| Capela dos cristãos-novos | hipótese de um historiador | Francisco Martins dos Santos (1953) |
Por onde passar para ver os lugares das histórias
Os pontos citados nas lendas ficam no Centro e podem ser visitados. O Mosteiro de São Bento, no sopé do morro de mesmo nome, abriga hoje o Museu de Arte Sacra de Santos. A Rua São Bento e o Largo Marquês de Monte Alegre ficam no Valongo, ponto de partida do bonde turístico. A encosta onde a gruta de 1928 teria aparecido é a mesma do Monte Serrat, que tem acesso pelo bondinho a partir da Praça Correia de Mello. A entrada da gruta, se ainda existe, está fechada e sem localização conhecida.
Onde consultar as fontes
- Diário Oficial de Santos: edições antigas disponíveis para download em diariooficial.santos.sp.gov.br, incluindo as de 28 e 29/3/2003 e 30/9/2008
- Fundação Arquivo e Memória de Santos (FAMS): responsável pelo acervo histórico do município
- Novo Milênio: a série “Túneis Secretos”, em novomilenio.inf.br, transcreve as reportagens de A Tribuna de 1953, 1980 e 2003
- Livros de referência: “Lendas e Tradições de uma Velha Cidade do Brasil” (1940) e “História de Santos”, de Francisco Martins dos Santos; “Santos de Ontem”, de Francisco Meira
Perguntas frequentes
Existem túneis subterrâneos em Santos?
Existem galerias no subsolo do Centro e do Valongo, encontradas em obras em 1962, 1977, 2003 e 2008. As avaliações de arqueólogos e técnicos apontam para estruturas de drenagem e canalização de antigos ribeirões.
O túnel entre o Mosteiro de São Bento e o cais existe?
Não há documento que comprove. A história vem da tradição oral. As galerias encontradas na região foram identificadas como drenagem ou canalização.
O que foi encontrado no Monte Serrat em 1928?
Segundo relatos do engenheiro Antônio Gomide Ribeiro dos Santos, publicados por historiadores, as obras após o deslizamento revelaram a entrada de uma gruta com um salão e um túnel. A abertura foi fechada por risco de novos deslizamentos e nunca foi investigada.
Quem contou a história de Mestre Bartolomeu e da gruta do Desterro?
O historiador Francisco Martins dos Santos, no livro “Lendas e Tradições de uma Velha Cidade do Brasil”, de 1940. O próprio livro apresenta o episódio como lenda.
O túnel da Rua São Bento, no Valongo, pode ser visitado?
Não há visitação divulgada. A galeria foi encontrada em 2008 no quintal de uma marcenaria particular, na Rua São Bento, 13.
Guilherme Carvalho
Fundador do Guia Amo Santos. Cobre a cidade desde 2015, do Instagram ao portal.












