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Conversa com a Comunidade

Gírias de Santos: 28 palavras e expressões que só a cidade usa

Santos tem um jeito próprio de falar que atravessa gerações. Palavras vindas da vida do porto, do dia na praia e da geografia dos canais criaram um vocabulário que boa parte de quem chega de fora leva algum tempo para decifrar. Este dicionário reúne 28 gírias santistas ainda em uso, organizadas por categoria: comida, localização, dinheiro, transporte, comportamento e o jeito santista de falar.

Pães franceses recém-assados no balcão de uma padaria, a média do vocabulário santista
Pães franceses recém-assados no balcão de uma padaria, a média do vocabulário santista

Toda cidade grande cria seu próprio jeito de falar. Em Santos, quase cinco séculos de história urbana somados a sucessivas ondas de imigração e migração interna produziram um vocabulário particular, com palavras que aparecem no pedido da padaria, no combinado antes de sair de casa e nas siglas usadas para se localizar dentro da cidade. Boa parte delas não circula fora da Baixada Santista. Este guia reúne 28 termos ainda em uso, com definição e um exemplo de aplicação. A ordem é temática, não alfabética, para dar contexto de uso.

Comida e padaria

Média. Pão francês, também chamado de pão de sal. É a base do pedido em qualquer uma das padarias tradicionais da cidade.
“Vou ali na padaria comprar cinco médias pro café.”

Pão de cará. Pão macio, fofinho e levemente adocicado, servido em rolinhos individuais. É reconhecido como patrimônio cultural de Santos.
“Passa a manteiga nesse pão de cará quente que fica perfeito.”

Como se localizar na cidade

Canal. Os canais numerados que atravessam a cidade em direção ao mar são o principal ponto de referência geográfica dos santistas. A rua ou a praia costumam ser identificadas pelo canal mais próximo.
“A gente vai se encontrar ali perto do Canal 4.”

Amanhecer no Canal 6 de Santos, com o canal numerado seguindo em direção ao mar, principal referência de localização dos santistas
O Canal 6, uma das referências geográficas que organizam a conversa santista (trufas1000 / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0)

Linha da máquina. Antiga linha de trem que dividia a cidade entre a área mais próxima da praia (mais valorizada) e a área mais próxima do continente (mais popular). A expressão continua em uso mesmo depois da desativação dos trilhos.
“Aquele restaurante novo fica para lá da linha da máquina.”

Cidade. Refere-se especificamente ao Centro Histórico de Santos, e não à cidade como um todo. Ir “para a Cidade” significa ir para o Centro.
“Preciso ir na Cidade resolver uns negócios no banco.”

Guarú. Apelido carinhoso para o município vizinho de Guarujá, do outro lado do estuário. Costuma ser usado com naturalidade em qualquer conversa.
“Bora pegar a balsa e colar em Guarú hoje?”

Fila da balsa. Serve como comparação para qualquer coisa que esteja demorando muito. A referência é literal: a fila da balsa Santos–Guarujá em fim de feriado prolongado.
“O trânsito na avenida estava parecendo a fila da balsa.”

Balsa da travessia Santos-Guarujá navegando no estuário, na altura da Ponta da Praia
A balsa para Guarú: a fila da travessia virou régua santista para qualquer demora (Emilio Pechini / Wikimedia Commons, CC BY 3.0)

Dinheiro, qualidade e valor

Mango. Dinheiro, em reais. Usado sempre no singular, mesmo no plural.
“Essa água de coco na praia custou dez mango.”

Cabuloso. Algo muito legal, sensacional ou surpreendente. É elogio.
“O show de ontem na praia foi cabuloso.”

Do doce. Algo de baixa qualidade, fuleiro, tosco ou falsificado. Pode qualificar produto, roupa, atitude.
“Não compra esse óculos aí não, é mó do doce.”

Baciada (ou “mô bacia”). Produto muito barato, de qualidade duvidosa, ou algo que todo mundo tem e virou lugar-comum.
“Esse tênis novo virou baciada, todo mundo usa.”

Boi / boiada. Algo extremamente fácil de fazer, ou uma oportunidade tão simples que quase se resolve sozinha.
“A prova de matemática hoje foi mó boi.”

Transporte, escola e praia

Magrela (ou “camelo”). Bicicleta, meio de transporte popular na orla e nos bairros próximos à praia.
“Vou dar um rolê de magrela na ciclovia hoje.”

Bolar aula. Cabular ou faltar aula para ir para a praia. A associação entre falta de aula e faixa de areia é direta.
“Vou bolar aula hoje para aproveitar que deu praia.”

Colante. Adesivo, especialmente os usados em skate, bicicleta, capacete ou caderno.
“Vou colar esse colante irado na minha magrela.”

Errorex. Corretivo líquido usado para apagar erros em caderno. O termo vem de uma marca comercial que virou palavra genérica.
“Me empresta o seu errorex para eu apagar o caderno?”

Lelê. Ato de fazer embaixadinhas com a bola de futebol na areia da praia. É atividade quase ritual em fim de tarde.
“Bora dar uns lelê na areia antes do sol se pôr?”

Ironia sobre quem vem de fora

Paulista. Qualquer turista ou visitante vindo de fora da Baixada Santista, principalmente da capital do estado. O uso é neutro na maioria das vezes e irônico em alguns contextos.
“A praia está lotada de paulista por causa do feriado.”

Carro de paulista. Expressão irônica usada para descrever um carro transitando com dois homens nos bancos da frente e duas mulheres no banco de trás, arranjo considerado clássico do turista.
“Olha lá aquele carro de paulista subindo a avenida.”

Adjetivos e comportamento

Mó. Abreviação de “maior”, usada para dar intensidade a qualquer coisa. Funciona como advérbio de reforço.
“Está mó calor hoje na praia.”

Mó boi. Nesse uso específico, ganha sentido afetivo: quando alguém demonstra interesse claro por outra pessoa, ou dá abertura para uma aproximação.
“Aquela pessoa me deu mó boi na festa.”

Paga sapo. Pessoa mentirosa, fanfarrona ou que gosta de contar vantagem sem base real.
“Não liga para o que ele fala, ele é mó paga sapo.”

No veneno (ou “veneno”). Pessoa que está extremamente irritada, brava ou com muita raiva. Aviso para não puxar assunto no momento errado.
“Melhor nem falar com ele agora, o cara tá no veneno.”

Tá osso. Situação muito difícil, complicada ou cansativa. Pode qualificar prova, trabalho, calor, trânsito.
“Ficar estudando no calor tá osso.”

Dois palitos. Uma tarefa muito rápida ou fácil de resolver. Sinaliza que a solução vai vir em pouco tempo.
“Espera aí que eu arrumo esse pneu em dois palitos.”

Fazer um vento. Pedir para alguém agilizar, andar mais rápido ou terminar logo o que está fazendo.
“Faz um vento aí com esse lanche que eu preciso sair.”

Casquei. Rir muito de alguma situação, geralmente de forma incontrolável. Alternativa local ao “morri de rir”.
“Eu casquei o bico com o tombo que ele levou na areia.”

O jeito santista de falar

Tu vai / tu viu. Marca do falar santista: uso do pronome “tu” combinado com verbos conjugados na terceira pessoa do singular. É a construção que mais rapidamente identifica alguém que cresceu na região quando conversa com paulistanos.
“Tu vai correr na praia mais tarde?”

Um vocabulário que ainda circula

As palavras reunidas aqui não estão em vias de desaparecer. Boa parte segue em uso ativo entre pessoas de todas as idades, tanto nas famílias santistas antigas quanto nos grupos que se formaram na cidade nas últimas décadas. O que muda ao longo do tempo é o peso de cada uma: algumas ganham reforço entre novas gerações (mango, cabuloso, tá osso), outras ficam mais na lembrança do que no dia a dia (linha da máquina, errorex, fila da balsa). A parte mais resistente é a geográfica: os canais, a Cidade e Guarú são referências ligadas ao desenho urbano da orla que atravessam décadas praticamente sem alteração. Quem quiser seguir nesse mergulho na identidade local encontra mais no guia de coisas que só existem em Santos.

Perguntas frequentes

O que é média em Santos?

Média é o pão francês tradicional, também chamado de pão de sal em outras regiões do país. É o item mais pedido nas padarias da cidade no café da manhã.

O que significa pão de cará em Santos?

Pão de cará é um pão macio, fofinho e levemente adocicado, servido em rolinhos individuais nas padarias santistas. É reconhecido como patrimônio cultural da cidade e uma das lembranças gastronômicas mais fortes de quem cresceu em Santos.

O que é a “linha da máquina” em Santos?

Linha da máquina é a antiga linha de trem que atravessava a cidade e dividia geograficamente as áreas mais próximas da praia (historicamente mais valorizadas) das áreas mais próximas do continente (historicamente mais populares). A expressão continua em uso mesmo depois da desativação dos trilhos.

Por que os santistas usam “canal” para se localizar?

Os canais numerados da orla, projetados no início do século XX, cortam a cidade em direção ao mar e funcionam como marcos geográficos naturais. Marcar encontro “no Canal 4” ou “no Canal 6” é mais direto do que combinar por endereço, porque cada canal identifica um trecho específico da orla e dos bairros vizinhos.

O que quer dizer “paulista” para quem é de Santos?

Paulista é o termo usado para se referir a qualquer visitante de fora da Baixada Santista, principalmente da capital do estado. O uso é neutro na maior parte das situações. A variação “carro de paulista”, com carga irônica, descreve o arranjo clássico de dois homens na frente e duas mulheres no banco de trás.

Por que o santista fala “tu vai” em vez de “tu vais”?

O jeito santista de falar usa o pronome “tu” combinado com o verbo na terceira pessoa do singular (“tu vai”, “tu viu”, “tu quer”). É um jeito compartilhado com outras regiões litorâneas do país e uma das marcas mais rápidas de identificar quem cresceu na Baixada Santista em uma conversa com pessoas de outras regiões.

Qual a diferença entre “boi” e “mó boi” em Santos?

“Boi” (ou “boiada”) descreve uma tarefa fácil ou uma oportunidade simples de aproveitar (“a prova foi mó boi”). Já “mó boi” no sentido afetivo indica quando alguém demonstra interesse ou dá abertura para outra pessoa (“me deu mó boi na festa”). O contexto da frase deixa claro qual dos sentidos está em jogo.

Guilherme Carvalho

Fundador do Guia Amo Santos. Cobre a cidade desde 2015, do Instagram ao portal.

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