Pagu em Santos: a vida da Patrícia Galvão que mudou o feminismo brasileiro
Primeira mulher presa política do Brasil, presa em Santos em 1931 durante uma greve dos estivadores, Patrícia Galvão fez da cidade o palco final da sua vida intensa. Em Santos escreveu para A Tribuna, liderou a campanha pela construção do Teatro Municipal e morreu, em 1962, deixando uma obra que voltaria a ser lida décadas depois.
Pagu virou um nome de muitas camadas: musa do Modernismo, militante comunista, jornalista, autora de um dos primeiros romances proletários do Brasil, primeira mulher presa política da história brasileira. Por trás de todos esses títulos está Patrícia Rehder Galvão, nascida em São João da Boa Vista em 1910 e morta em Santos em 1962. A cidade entrou em sua vida pela porta da militância, em 1931, e voltou a recebê-la em 1954, quando ela e o marido, Geraldo Ferraz, decidiram morar definitivamente na Baixada Santista. É uma vida que merece ser lida olhando para os endereços que ela ocupou.
Quem foi Patrícia Galvão, a Pagu
Patrícia Rehder Galvão nasceu em São João da Boa Vista, interior de São Paulo, no dia 9 de junho de 1910, filha de Thiers Galvão de França e Adélia Rehder Galvão. Mudou-se com a família para a capital paulista aos dois anos, e foi em São Paulo que cresceu e se formou. Aos 15 anos começou a colaborar como jornalista em um jornal de bairro. Aos 18, conheceu os modernistas, em especial Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral, por intermédio do poeta Raul Bopp, que poucos anos depois lhe daria o apelido Pagu, juntando as primeiras sílabas de Patrícia e Galvão.
Foi jornalista, escritora, poeta, desenhista, ilustradora, tradutora, diretora teatral, crítica e militante política. Traduziu Franz Kafka e Eugène Ionesco para o português antes de eles serem nomes conhecidos no Brasil. Assinou textos sob diversos pseudônimos ao longo da vida, entre eles Mara Lobo, Patsy, Pat, Solange Sohl, Ariel e King Shelter, este último para histórias policiais na revista Detective, do dramaturgo Nelson Rodrigues. A identidade de King Shelter só foi descoberta 36 anos depois da morte dela.

A primeira mulher presa política do Brasil foi presa em Santos
A primeira chegada de Pagu a Santos foi em 1931. Ela tinha 21 anos, era casada com Oswald de Andrade e mãe de Rudá, o primeiro filho. Junto com Oswald, fundara o jornal de esquerda O Homem do Povo, e mantinha a coluna A Mulher do Povo, com críticas duras ao feminismo burguês da época.
Em 15 de abril de 1931, durante uma greve dos estivadores do Porto de Santos, Pagu foi detida pela polícia. O episódio fez dela a primeira mulher presa por motivos políticos no Brasil. Ao longo dos anos seguintes, seriam mais de 20 prisões, várias delas durante o Estado Novo de Getúlio Vargas.
Foi nesse mesmo período santista que ela viveu o momento que mais marcou sua militância: o assassinato do estivador negro Herculano de Souza, ferido em confronto entre trabalhadores e a polícia. Pagu acolheu o estivador agonizante. O episódio é descrito por ela na autobiografia que mais tarde se tornaria o livro Paixão Pagu.
Parque Industrial e o romance proletário brasileiro
Em 1933, Pagu publicou Parque Industrial, considerado um dos primeiros romances proletários do Brasil. A obra retratava a vida operária de São Paulo, com foco nas trabalhadoras das fábricas têxteis. Saiu sob o pseudônimo Mara Lobo, exigência do Partido Comunista, do qual ela era filiada na época. Pagu seria expulsa do partido em 1938 e mais tarde se afastaria definitivamente do stalinismo, aproximando-se de uma posição trotskista e, depois, de um socialismo democrático.
Em paralelo à militância, viajou pelo mundo. Passou pela União Soviética, China, Japão e Estados Unidos. Frequentou cursos na Sorbonne, em Paris, foi presa pela polícia francesa por usar documentos falsos e só foi liberada após intervenção do embaixador brasileiro.
A volta a Santos: o jornal A Tribuna e o Teatro Municipal
Em 1945, depois do divórcio com Oswald, Pagu se casou com o jornalista Geraldo Ferraz, então repórter do jornal A Tribuna, de Santos. O segundo filho dela, Geraldo Galvão Ferraz, nasceu pouco depois. Em 1954, a família mudou-se em definitivo para a Baixada Santista. Foi em Santos que Pagu viveu seus últimos oito anos, em fase intensa de produção jornalística e teatral.
Em A Tribuna, escreveu colunas regulares sobre teatro, literatura, cinema, televisão e artes plásticas. A coluna Teatro Mundial Contemporâneo (1955), a coluna Palcos e Atores (1957-1961) e a coluna sobre TV, assinada com o pseudônimo Gim, estão entre as séries que ela produziu na fase santista. Em paralelo, frequentou a Escola de Arte Dramática de São Paulo a partir de 1952 e passou a levar espetáculos para Santos.
A campanha pela construção do Teatro Municipal de Santos teve nela uma das vozes mais ativas. Pagu coordenou também a primeira edição do Festival de Teatro Amador de Santos e Litoral e foi figura central do circuito que tinha como pontos fixos o Teatro Coliseu e o Bar Regina, frequentado por artistas e militantes do Partido Comunista. Foi nesse ambiente que a santista Maria Valéria Rezende, hoje escritora premiada, conheceu Pagu quando ainda era menina, no início dos anos 1950.
A morte em Santos e a redescoberta na literatura
Em 1962, Pagu foi a Paris para uma cirurgia de câncer no pulmão. A intervenção fracassou. Voltou ao Brasil debilitada e ainda assim publicou, em A Tribuna, seu último texto, o poema Nothing. Morreu em Santos em 12 de dezembro de 1962, aos 52 anos. Foi sepultada no Cemitério da Filosofia, no Saboó.
A obra de Pagu permaneceu pouco conhecida do grande público por décadas. Foi o poeta e tradutor Augusto de Campos quem, no final dos anos 1970, começou um trabalho sistemático de divulgação da vida e da obra dela, com o livro Pagu – Vida e Obra, publicado em 1982. Desde então, a redescoberta ganhou força. Pagu virou tema de filmes, peças, canções, dissertações acadêmicas e do núcleo de estudos de gênero da Unicamp, que leva seu nome. Em 2023, foi homenageada da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip).
A Prefeitura de Santos mantém um hotsite oficial dedicado a ela e, em 2024, transferiu seus restos mortais para um jazigo no Cemitério do Saboó, em homenagem ao Dia Internacional da Mulher. O gesto foi tratado pela administração municipal como reconhecimento institucional da relevância histórica e cultural da autora para Santos.
Linha do tempo de Pagu em Santos
| Ano | Marco |
|---|---|
| 1931 | Primeira prisão em Santos durante greve dos estivadores |
| 1945 | Casamento com Geraldo Ferraz, jornalista de A Tribuna |
| 1954 | Mudança definitiva para a Baixada Santista |
| 1955-1961 | Colunas semanais em A Tribuna sobre teatro, literatura e TV |
| 1957 | Coordena o Festival de Teatro Amador de Santos e Litoral |
| 1962 | Publica o poema Nothing em A Tribuna e morre em 12 de dezembro |
| 1982 | Augusto de Campos publica Pagu – Vida e Obra |
| 2024 | Prefeitura de Santos transfere restos mortais para jazigo no Saboó |
- Quem: Patrícia Rehder Galvão (1910-1962), a Pagu — jornalista, escritora, poeta, militante política e desenhista.
- Quando chegou a Santos: primeira vez em 1931, presa durante greve dos estivadores; em definitivo a partir de 1954.
- Onde trabalhou: jornal A Tribuna, com colunas semanais sobre teatro, literatura, cinema, TV e artes plásticas entre 1955 e 1961.
- Marco editorial: autora de Parque Industrial (1933), um dos primeiros romances proletários do Brasil.
- Onde está enterrada: Cemitério do Saboó, em Santos. Restos mortais transferidos para jazigo em 2024.
Perguntas frequentes sobre Pagu em Santos
Quem foi Pagu?
Patrícia Rehder Galvão (1910-1962), jornalista, escritora, poeta, militante política e desenhista. Foi a primeira mulher presa por motivos políticos no Brasil, em Santos, em 1931. Autora de Parque Industrial (1933), um dos primeiros romances proletários brasileiros.
Pagu era santista?
Pagu nasceu em São João da Boa Vista, interior de São Paulo, e cresceu em São Paulo capital. Ligou-se a Santos pela militância em 1931 e mudou-se para a cidade em definitivo em 1954, onde viveu até a morte, em 1962. Em termos de história adotada, é uma das figuras mais santistas que existem.
Por que Pagu foi presa em Santos?
Em 15 de abril de 1931, durante uma greve dos estivadores do Porto de Santos, Pagu foi detida pela polícia como militante comunista. Foi a primeira mulher do Brasil a ser presa por motivos políticos.
Qual o papel de Pagu no Teatro Municipal de Santos?
Pagu foi uma das vozes mais ativas na campanha pela construção do Teatro Municipal de Santos e coordenou a primeira edição do Festival de Teatro Amador de Santos e Litoral, na década de 1950.
Onde Pagu está enterrada?
No Cemitério do Saboó, em Santos. Em 2024, a Prefeitura de Santos transferiu seus restos mortais para um jazigo no mesmo cemitério, em homenagem ao Dia Internacional da Mulher.
Que livros e obras Pagu escreveu?
Sua obra mais conhecida é o romance Parque Industrial (1933), publicado sob o pseudônimo Mara Lobo. Pagu também escreveu poemas, peças teatrais, contos policiais sob o pseudônimo King Shelter para a revista Detective, e centenas de colunas no jornal A Tribuna de Santos entre 1955 e 1961. Augusto de Campos reuniu vida e obra dela no livro Pagu – Vida e Obra (1982).
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Guilherme Carvalho
Fundador do Guia Amo Santos. Cobre a cidade desde 2015, do Instagram ao portal.










