Prédios tortos de Santos: como o solo de mangue inclinou a orla
Santos tem 319 prédios inclinados, 65 deles na orla. Saiba o que o solo de mangue tem a ver com a paisagem santista e o que está sendo feito para o reaprumo.
Santos tem 319 prédios com algum grau de inclinação registrada, sendo 65 deles na orla, entre os canais 2 e 6. As inclinações vão de meio metro a quase dois, e a explicação está no encontro entre a argila mole dos antigos manguezais e a especulação imobiliária que ergueu as torres do litoral entre 1950 e 1970. Em 2026, Prefeitura, BNDES e a associação dos condomínios atingidos discutem uma linha de crédito para o reaprumo.
Quem percorre a orla de Santos pela primeira vez, especialmente o trecho entre o Gonzaga e a Aparecida, costuma demorar alguns minutos para entender o que está vendo. As linhas dos edifícios não estão alinhadas com o céu. Algumas torres se inclinam visivelmente em direção ao mar, outras tombam para o lado, e em uma mesma quadra é possível encontrar até três prédios que perderam o prumo. A paisagem virou cartão-postal involuntário e uma das curiosidades urbanísticas mais conhecidas do Brasil. A explicação não está no acaso, mas no solo, na história da cidade e em decisões de engenharia tomadas há mais de meio século.
319 prédios inclinados, 65 deles na orla
Levantamento da Prefeitura de Santos divulgado em 2026 contabiliza 319 edifícios com algum grau de inclinação registrada no município. Desses, 65 estão concentrados na orla, no trecho entre os canais 2 e 6, que atravessa os bairros Gonzaga, Boqueirão, Embaré e Aparecida. A inclinação medida entre a base e o topo desses prédios varia de meio metro a 1,8 metro, segundo monitoramento técnico que vem sendo feito há décadas. Cerca de 16 mil pessoas moram em apartamentos nesses edifícios.
A concentração na orla tem motivo. Foi ali, na faixa de terra que dá para o mar, que o boom de construção das décadas de 1950 a 1970 levantou as torres de veraneio que mudaram a cara da cidade. A maior parte dos prédios tortos foi construída exatamente nesse intervalo, sobre solo que pouco se conhecia em profundidade na época.
Argila marinha sobre antigos manguezais: o solo de Santos
A geografia da orla santista ajuda a explicar a história. Boa parte da área hoje ocupada por avenidas, jardins frontais e edifícios era manguezal até pouco mais de cem anos atrás. O aterro desses terrenos avançou no século XIX e início do século XX, junto com a urbanização da cidade no auge do ciclo do café, do bonde e da expansão do porto. O resultado dessa transformação foi uma faixa de terra com perfil geotécnico extremamente delicado.
O subsolo da orla é formado por uma fina camada superficial de areia compacta, com no máximo dois ou três metros de espessura, seguida de uma espessa camada de argila marinha mole. Essa argila é o que sobrou da decomposição da matéria orgânica do antigo mangue, sob saturação permanente de água. É um material com pouquíssima resistência mecânica, capaz de comprimir-se sob carga e adensar-se de forma muito lenta ao longo de décadas. A camada firme, onde fundações realmente conseguem encontrar resistência segura para sustentar uma torre, está aproximadamente 60 metros abaixo do nível do solo.
A engenharia geotécnica brasileira cita o solo de Santos como um dos mais difíceis do mundo para construção em altura, em referência recorrente que aparece ao lado da Cidade do México como um dos casos críticos em metrópoles densamente edificadas.

Recalque diferencial: o que faz a estrutura tombar
O fenômeno técnico responsável pela inclinação dos prédios chama-se recalque diferencial. Recalque, em engenharia de fundações, é o rebaixamento que uma estrutura sofre conforme o solo abaixo dela se comprime sob o peso da construção. Isso é normal e, em teoria, controlado em projeto. O problema acontece quando o rebaixamento não é uniforme.
Em um edifício que está apoiado sobre uma camada argilosa saturada, a compressão dessa argila tende a acontecer de forma desigual ao longo da base. Um lado afunda mais que o outro, por diferenças sutis na espessura da camada de argila, na distribuição de cargas dentro do prédio ou pela influência de construções vizinhas. Esse afundamento desigual provoca a inclinação progressiva da estrutura como um todo. É o recalque diferencial em ação.
Há um agravante específico para o caso santista. Quando dois prédios vizinhos ficam muito próximos, os chamados bulbos de tensão gerados por cada um (a região do solo onde a carga do edifício se distribui no subsolo) se sobrepõem. As cargas se somam, a compressão da argila acelera e a tendência é que os prédios se aproximem entre si conforme afundam. A vizinhança densa da orla santista, com torres erguidas a curta distância umas das outras, transformou esse efeito em padrão.
Fundações rasas e a especulação imobiliária dos anos 1960
A explicação técnica não basta sem o contexto histórico. Santos viveu, nas décadas de 1950, 1960 e 1970, uma explosão imobiliária ligada ao veraneio paulista. Apartamentos na orla viraram produto de massa, vendidos para famílias da capital e do interior que queriam casa de praia. O ritmo de construção exigia entregas rápidas e custos contidos.
Estudos geotécnicos do solo santista, embora já existissem, eram frequentemente ignorados. Em vez de fundações profundas, que exigem estaqueamento até a camada firme a cerca de 60 metros, a maioria dos construtores optou por fundações rasas. As chamadas sapatas eram instaladas entre 1,5 e 2 metros de profundidade, apoiadas na fina camada superficial de areia compacta, e amarradas entre si por vigas de rigidez para tentar reduzir as distorções.
Era uma solução mais barata, com economia estimada em algo entre 10 e 30 por cento sobre o custo total da obra. E era uma solução que, na prática, terceirizava o problema para o tempo. A argila marinha abaixo das sapatas ia sendo comprimida lentamente, ano após ano, sob o peso das torres. O recalque diferencial começou a aparecer visualmente nos prédios da orla a partir dos anos 1970. Em alguns casos, a inclinação chegou a vários graus mensuráveis e tornou-se evidente até para quem caminhava pela calçada.

O caso do Núncio Malzoni: o único reaprumado da orla
O edifício mais conhecido dessa história é o Condomínio Núncio Malzoni, na Av. Bartolomeu de Gusmão, 17, no Boqueirão. A torre tem 17 andares e 55 metros de altura. Um dos blocos chegou a registrar inclinação de 2,2 graus, e outro, 1,8 grau, antes da intervenção. O monitoramento técnico dos recalques começou a ser feito em 1971, e nas décadas seguintes a estrutura foi se tornando um dos cartões visuais mais comentados da orla.
No início dos anos 2000, o condomínio se tornou o primeiro e até hoje único prédio da orla santista a passar pelo reaprumo completo. A solução técnica envolveu a execução de estacas raiz com 40 centímetros de diâmetro e 55 metros de comprimento, chegando à camada firme do solo, que serviram de sub-fundação. Em seguida, vigas de transferência conectaram a estrutura existente às novas fundações, e macacos hidráulicos fizeram o reaprumo, levantando o lado mais afundado até a estrutura voltar ao prumo. Os moradores permaneceram em casa durante a obra, e a intervenção tornou-se referência internacional para casos semelhantes.
Onde estão os prédios tortos: mapa por bairro
A concentração visível dos prédios tortos da orla está em quatro bairros da zona da orla santista. De oeste para leste:
- Gonzaga. Trecho com menor concentração entre os quatro, mas com casos pontuais em ruas próximas à praia.
- Boqueirão. Um dos pontos mais críticos, especialmente ao longo da Av. Bartolomeu de Gusmão. É ali que está o Núncio Malzoni.
- Embaré. Continuidade do problema do Boqueirão, com várias torres erguidas no mesmo período e com soluções de fundação semelhantes.
- Aparecida. Concentração relevante, com prédios visivelmente inclinados quando observados da faixa de areia.
A faixa concentra a maior parte dos 65 prédios da orla. Os outros 254 edifícios com inclinação registrada estão distribuídos por bairros do interior, em áreas que também foram aterradas a partir de antigos manguezais — algumas hoje ocupadas por equipamentos como o Jardim Botânico. A escolha do mangue como base do urbanismo santista, decisão que tornou possível a cidade contemporânea, deixou efeito colateral espalhado pela malha urbana.
A história do solo santista se entrelaça com a fundação da cidade. Quando o povoado de Santos foi elevado a vila em 1546, o entorno do Outeiro de Santa Catarina era um morro firme cercado de mangue, e a expansão urbana se deu sobre esses terrenos. Para entender as raízes da formação urbana santista, vale a leitura sobre a fundação da cidade por Brás Cubas.
2026: BNDES e Prefeitura discutem financiamento para reaprumo
A questão dos prédios tortos voltou ao centro do debate público em 2026. A Prefeitura de Santos, em conjunto com a Associação dos Condomínios dos Prédios Inclinados (ACOPI), apresentou ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) uma proposta para criar uma linha de crédito específica voltada ao reaprumo dos edifícios da orla. A reunião inicial aconteceu em março de 2026, com representantes do banco, da prefeitura e da engenharia especializada.
A intenção é que a prefeitura atue como garantidora do financiamento, permitindo que os condomínios afetados consigam acesso ao crédito necessário. O modelo ainda está sendo desenhado, sem precedente direto no portfólio do BNDES para esse tipo de intervenção. A consultoria técnica que participou do reaprumo do Núncio Malzoni nos anos 2000 está envolvida nos estudos de pelo menos quatro novos edifícios da orla.
Quatro técnicas de reaprumo em discussão
Os estudos apresentados ao BNDES descrevem quatro caminhos possíveis para o reaprumo dos prédios da orla, cada um com aplicação específica conforme o quadro de cada edifício.
- Estabilização por estacas. Reforço das fundações com novas estacas profundas, sem o uso de macacos hidráulicos. A intervenção evita que a inclinação avance, mas não corrige o prumo existente.
- Sub-estrutura com transferência de cargas. Construção de uma nova estrutura sob o prédio, capaz de assumir parte do peso. Estacas escavadas são instaladas, vigas de transferência conectam a estrutura existente, e macacos hidráulicos fazem o reaprumo. É o método aplicado no Núncio Malzoni.
- Blocos de sustentação com hidráulicos. Variação da técnica anterior, com blocos de construção sustentando o peso enquanto a inclinação é corrigida com equipamentos hidráulicos.
- Travamento do movimento. Quando o reaprumo não é viável, opta-se por travar a inclinação no estado atual, evitando que o quadro piore com o tempo.
A comparação com a Torre de Pisa
Quando o tema dos prédios tortos de Santos chega ao noticiário internacional, a comparação com a Torre de Pisa é inevitável. Vale registrar a diferença real. A torre italiana, construída entre os séculos XII e XIV, tem aproximadamente 56 metros de altura e cerca de quatro metros de inclinação entre a base e o topo. Os prédios tortos de Santos, entre 0,5 e 1,8 metro de inclinação, ainda estão longe desse patamar. Há também diferença de natureza: a Torre de Pisa é monumento histórico não residencial, com a inclinação convertida em atrativo cultural, enquanto os edifícios santistas são residenciais e exigem monitoramento e intervenção técnica.
Resumo dos números
| Item | Dado |
|---|---|
| Total de prédios inclinados em Santos | 319 |
| Prédios inclinados na orla | 65 |
| Bairros da orla com concentração | Gonzaga, Boqueirão, Embaré, Aparecida (entre os canais 2 e 6) |
| Variação da inclinação | 0,5 a 1,8 metro (entre base e topo) |
| Moradores afetados | Cerca de 16 mil pessoas |
| Período de construção | Décadas de 1950, 1960 e 1970 |
| Solo predominante | Argila marinha mole sobre fina camada de areia compacta |
| Profundidade da camada firme | Aproximadamente 60 metros |
| Profundidade das fundações originais | 1,5 a 2 metros (sapatas) |
| Casos reaprumados na orla | 1 (Edifício Núncio Malzoni, Boqueirão) |
| Discussão atual (2026) | Linha de crédito BNDES + Prefeitura + ACOPI |
Perguntas frequentes
Por que os prédios de Santos são tortos?
Porque a maioria foi erguida sobre solo de antigos manguezais aterrados, com fundações rasas (sapatas a 1,5-2 metros de profundidade) apoiadas em uma fina camada de areia sobre espessa camada de argila marinha mole. Com o tempo, a argila se comprime de forma desigual sob o peso das torres, provocando o recalque diferencial e a inclinação visível das estruturas.
Quantos prédios tortos existem em Santos?
Levantamento da Prefeitura de Santos divulgado em 2026 aponta 319 edifícios com algum grau de inclinação no município. Desses, 65 estão concentrados na orla, no trecho entre os canais 2 e 6, que atravessa Gonzaga, Boqueirão, Embaré e Aparecida.
Qual é o prédio mais inclinado de Santos?
O edifício Núncio Malzoni, na Av. Bartolomeu de Gusmão, 17, no Boqueirão, registrou inclinação de até 2,2 graus em um de seus blocos antes do reaprumo. Foi o único prédio da orla santista a passar por correção completa da inclinação, no início dos anos 2000.
Os prédios tortos de Santos podem cair?
Não há indicação de risco iminente de colapso, segundo a Prefeitura e os estudos técnicos atuais. O monitoramento contínuo da inclinação e da estrutura é o que orienta as decisões de intervenção. Em todos os casos da orla, a recomendação técnica é o reaprumo ou ao menos o travamento da inclinação, para evitar que o quadro avance no longo prazo.
Os prédios tortos de Santos estão mais inclinados que a Torre de Pisa?
Não. A Torre de Pisa tem aproximadamente 56 metros de altura e cerca de quatro metros de inclinação entre base e topo. Os prédios tortos de Santos têm inclinações entre 0,5 e 1,8 metro. A torre italiana é mais inclinada em valores absolutos, mas trata-se de monumento histórico não residencial, enquanto os edifícios santistas abrigam moradores.
O que está sendo feito para corrigir os prédios tortos?
Em 2026, Prefeitura de Santos e BNDES discutem a criação de uma linha de crédito específica para financiar o reaprumo dos prédios da orla. A proposta foi apresentada pela Associação dos Condomínios dos Prédios Inclinados (ACOPI). Quatro técnicas de engenharia estão em estudo, com referência no caso do Núncio Malzoni, único exemplo bem-sucedido de reaprumo na orla até hoje.
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Guilherme Carvalho
Fundador do Guia Amo Santos. Cobre a cidade desde 2015, do Instagram ao portal.










